“Reivindica-se uma outra democracia, bem
diferente desta a que estamos acostumados, que é mais farsa do que realidade” Foto: Ilustrativa
Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das várias edições do Fórum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão, incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com direitos, com participação, com relações horizontais e transversais facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos facebooks.
Paul Krugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para estudar a forma como esse pequeno pais ártico saiu de sua crise avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição, garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e conseguiram criar empregos. Consequência: o país saiu do atoleiro e é um dos que mais cresce nos países nórdicos. O caminho islandês foi silenciado pela mídia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas, mas coerentes com o sistema, corre célere rumo a um precipício.
Uma das mesas de debates importante no Fórum Social Temático em Porto
Alegre, da qual me coube participar, foi escutar os testemunhos vivos dos
Indignados da Espanha, de Londres, do Egito e dos EUA. O que me deixou muito
impressionado foi a seriedade dos discursos, longe do viés anárquico dos anos
60 do século passado com suas muitas “parolle”. O tema central
era “Democracia já”. Reivindicava-se
uma outra democracia, bem diferente desta a que estamos acostumados, que é mais
farsa do que realidade. Querem uma democracia que se constrói a partir da rua e
das praças, o lugar do poder originário. Uma democracia que vem de baixo,
articulada organicamente com o povo, transparente em seus procedimentos e não
mais corroída pela corrupção. Esta democracia, de saída, se caracteriza por
vincular justiça social com justiça ecológica.
Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das várias edições do Fórum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão, incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com direitos, com participação, com relações horizontais e transversais facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos facebooks.
Temos a ver com uma verdadeira revolução. Antes as
relações se organizavam de forma vertical, de cima para baixo. Agora é de forma
horizontal, para os lados, no imediatismo da comunicação à velocidade da luz.
Este modo representa o tempo novo que estamos vivendo, da informação, da
descoberta do valor da subjetividade, não aquela da modernidade, encapsulada em
si mesma, mas da subjetividade relacional, da emergência de uma consciência de
espécie que se descobre dentro da mesma e única Casa Comum, Casa, em chamas ou
ruindo pela excessiva pilhagem praticada pelo nosso sistema de produção e consumo.
Essa sensibilidade não tolera mais os métodos do sistema de superar a
crise econômica e derivadas, sanando os bancos com o dinheiro dos cidadãos,
impondo severa austeridade fiscal, a desmontagem da seguridade social, o
achatamento dos salários, o corte dos investimentos no pressuposto
ilusório de que dessa forma se reconquista a confiança dos mercados e se
reanima a economia. Tal concepção é feita dogma e ai se ouve o estúpido bordão: “TINA: there is no alternative”, não há
alternativa. Os sacrílegos sumos sacerdotes da trindade nada santa do FMI, da
União Européia e do Banco Central Europeu deram um golpe financeiro na Grécia e
na Itália e puseram lá seus acólitos como gestores da crise, sem passar pelo
rito democrático. Tudo é visto e decidido pela ótica exclusiva do econômico,
rebaixando o social e o sofrimento coletivo desnecessário, o desespero das
famílias e a indignação dos jovens por não conseguirem trabalho. Tudo pode
desembocar numa crise com consequências dramáticas.
Paul Krugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para estudar a forma como esse pequeno pais ártico saiu de sua crise avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição, garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e conseguiram criar empregos. Consequência: o país saiu do atoleiro e é um dos que mais cresce nos países nórdicos. O caminho islandês foi silenciado pela mídia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas, mas coerentes com o sistema, corre célere rumo a um precipício.
Contra esse curso previsível se opõem os indignados. Querem um outro
mundo, mais amigo da vida e respeitoso da natureza. Talvez a Islândia servirá
de inspiração. Para onde irão? Quem sabe? Seguramente não na direção dos
modelos do passado, já exauridos. Irão na direção daquilo que falava Paulo
Freire, “do inédito viável” que nascerá desse novo imaginário. Ele se expressa,
sem violência, dentro de um espírito democrático-participativo, com muito
diálogo e trocas enriquecedoras. De todas as formas, o mundo nunca será
como antes, muito menos como os capitalistas gostariam que ficasse.
Texto: Leonardo Boff
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